sexta-feira, 10 de setembro de 2010

She

Um armário de doze portas, fechadas por sinal. Uma cortina que impede que a luminosidade vespertina adentre esse cômodo, que não é dela. Quatro instrumentos de cordas encostados num móvel que tem um objeto estranho, quadrado, fino, com duas caixinhas ao lado. Uma pessoa com trajes largos está a frente de uma coisa cheia de teclas. Um telefone, um outro aparelho. Um baralho ao lado da televisão, embaixo alguns fios nunca utilizados, nem nunca descobertas suas utilidades foram. Uma chave sem chaveiro, quatro pares de tênis, um quase invisível. Uma cama bagunçada, com bagunça de amor. Duas mochilas estão jogadas sobre ela, roupas amassadas que não fazem diferença agora. Inúteis. Almofadas jogadas pelo chão liso de um quarto que aconchega uma alma solitária. Uma alma solitária que busca por palavras. Olha tudo ao seu redor. Nada encontra. Aprofunda seus pensamentos, mas nada há em sua mente. Um som meio silencioso está presente, se não fosse a música que ouve para distrair-se da solidão. Uma música que fala de amor. Estranho, já que sente ausência, mesmo existindo presença, logo ali, no outro cômodo. Agora achou um papel, desgastado, parece que tem uns dois anos ou mais. Tem um texto, um belo texto. Fala sobre algumas cicatrizes, invisíveis, e que doem quando chove. O circuito está fechado. Agora ouve o som afinado de um violão, tocado suavemente. Os pelos quase invisíveis daquele fino braço, se arrepiaram. Agora a luz se vai, chegou sua vez, penumbra. Não se incomoda, uma vez que gosta de você. A noite está para ser anunciada, não falta muito. Pegou sua garrafa com um quarto de conteúdo, e virou. Sentiu ardência, e depois, uma espécie de anestesia. Agora, nada sente. Ainda está olhando para o tal quadrado do qual não consegue desviar os olhos por longos instantes. Mas tudo bem. Acho que seu trabalho que tampouco tem importância, foi terminado.

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