(...)
''Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.(...)''
Fernando pessoa
sexta-feira, 8 de abril de 2011
sexta-feira, 4 de março de 2011
Guardo a chuva no bolso
Observo o cinza do céu repleto de nuvens carregadas, é a chuva que está pra chegar. Apresso-me para não me molhar, mas não tenho medo. A chuva é tão linda...Seus pingos tão miúdos e finos adiantam-se em pintar o chão das ruas, ou até mesmo o verde das gramas com sua água fresca, incolor. Busco pelo guarda-chuva em minha bolsa, mas a bagunça que há dentro dela impede que essa seja uma tarefa fácil. Procuro por um abrigo, ótimo seria se encontrasse uma cafeteria, onde além de refrescar as ideias, posso aquecer as mãos. Ah, nada melhor! Ando pelas ruas ainda procurando o guarda-chuva, mas acabo-me por encontrar minha vontade: café. Entrei na livraria com cheiro de ideias novas, velhas, geniais e café exalando o local. Agora posso sentar-me e procurar tranquilamente pelo guarda-chuva enquanto espero meu café e observo as prateleiras repletas de cores, amores, histórias e mais. Inútil, parou de chover.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Me esqueci por aí
Estou esquecida, por dias fora de casa. Já nem sei mais qual dos cômodos é o meu preferido, também perdi a preferência pelas almofadas. Passo despercebida pelas canetas jogadas em cima do caderno que inutilmente acompanhava-me até a escola, abandonados, secos e implorando por tinta fresca em suas páginas em branco. Não totalmente, pois acabo-me por preenchê-las nesse instante. Cantos que foram apagados da memória por alguns dias, tiraram férias da monotonia. esqueci por conta própria, por vontade minha, não por involuntariedade, mas adorei. Porque ao por meus pés neste apartamento velho, senti algo novo, como se nunca estivesse aqui antes, explorando cada detalhe e reagindo maravilhada. Aqui, neste velho quarto, neste velho tudo, com essa sensação de novidade. Sem palavras.
Onde tudo é cinza
Mais uma vez estava ali, queria poder acreditar que talvez, a última. Mas esse carma não tem fim nunca. Meu medo de perder impede que eu não volte nunca mais. Bati na porta e ninguém abriu. Apesar das janelas abertas, meu chamado não foi respondido. Ainda ficava a me perguntar por que insistir na ideia tola de voltar atrás, mas tampouco obtia respostas. Algumas das poucas vezes, talvez todas as vezes que pensei racionalmente nesse assunto tão...(suspiros) que você é, todas as respostas foram negativas, e não me surpreenderam. Sempre tive sã consciência da minha frieza abrigada no coração. Dói quando pulsa. Mas você esculpiu um belo coração nesse gelo aqui mantido. Como conseguiu, eu não sei. Sabia que quando sua partida fosse anunciada, ele derreteria. Como se não fosse existir mais. Como se não fosse amar mais. Ninguém constrói nada com isso que restou. E quer saber? Essa foi a última sensação que você me passou: esse líquido gelado unindo-se ao sangue quente, e então, desaparecendo, desfazendo-se. E é assim que me sinto desde então. Desde agora, que bato à sua porta e não obtenho sequer um ruído vindo de dentro, que pudesse confirmar sua presença, mas não. Você se foi e apenas deixou as janelas abertas para que desse a entender que ainda está aqui. Mas eu não precisava de nada disso, pois meu coração já sentia, eu apenas não quis acreditar. Não desisti de te encontrar, pois sei que está em cada canto desta casa. E não se preocupe em me procurar algum dia desses, basta voltar, e eu estarei em qualquer cômodo, transformando as saudades em cinzas, e depositando-as nos cinzeiros espalhados por aí...
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Camaleões
Algumas pessoas são exatamente como eles. Eles sempre estão por aí, fingindo ser alguém, adaptando-se a qualquer lugar e situação. Você nem percebe, são tão comuns quanto todos nós. Exceto por uma coisa. Embora sempre tenham seus momentos vitoriosos, também falham. Exatamente na hora que menos esperam, são descobertos.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Insano
A linha constante e sempre muito forte que contém os fatos da minha vida está sem rumo, a linha está tênue. Não sei o que está acontecendo, é difícil definir se é uma fase ou se é um status. Estou inconstante, perdida, despretensiosa. Estou com medo, ansiosa, desiludida. Descalça, despida e largada. Sinto que tudo que custei a conquistar foi-se com a leve brisa passageira que veio bagunçar meus cabelos desajeitados. Não há nada que traga minhas esperanças de volta, não há médico para minha doença. Nem o melhor dos sanatórios curaria minha loucura, meu estado mental, abalado, que repete cenas que não quero. Que fala com uma voz rouca, que tem um pulmão desgastado, que me assusta. Embora não quisesse admitir, não posso negar que esta é minha pior situação desde então. Desejar o fim dos dias só para poder então deitar no meu leito, no meu repouso. Momento único em que a voz não me atordoa, por sinal. Cansei de procurar o fio da meada que me trouxe até aqui. Sinto-me sozinha, mais do que quando realmente não tenho ninguém, exatamente quando não tenho ninguém e nada. Apego-me às coisas materiais pois elas não são como pessoas, que vem e vão. Elas vêm e ficam. Sempre me acompanharam, por mínimas e tolas que fossem, estavam aqui. Substituem o afeto que já é ausente a tempos na minha estrada. Eu mesma fiz questão de tirá-lo do meu caminho. As pessoas perderam o controle de seus sentimentos, nem mesmo sabem a intensidade dos mesmos. Prefiro a loucura, que me permite um universo paralelo, que, não digo que bom, mas pelo menos, não é monótono. Me distrai, alimentando minha insanidade e minha vontade louca de ouvir aquela voz dizendo-me o que ou não fazer, pra eu ter uma decisão por mim mesma, algo coerente, que o mundo já não sabe mais o que é. Essas pessoas são normais, vida normal, tudo normal. Dizem que ser normal é bom. Não gosto nada da ideia, insatisfatório para mim, na realidade. Prefiro viver nesse mundo insano da loucura, do anormal, do que permitir-me a ser uma mera pessoa normal, cheia de pretensões minimalistas e vazias. Devaneios.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Vida curta
Pálpebra pesada
Vista cansada
Eternidade jurada
Jura quebrada
Palavras ao vento
Que num dia cinzento
Tornam-se lamento
Lamento a troco de nada
Respiração parada,
Reflexos de uma vida transtornada
Última palavra de uma boca que nunca disse nada:
Adeus.
Vista cansada
Eternidade jurada
Jura quebrada
Palavras ao vento
Que num dia cinzento
Tornam-se lamento
Lamento a troco de nada
Respiração parada,
Reflexos de uma vida transtornada
Última palavra de uma boca que nunca disse nada:
Adeus.
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